Um dos efeitos colaterais mais interessantes do lançamento do Chrome OS é a discussão da sua viabilidade como um sistema operacional corporativo – discussão, aliás, estimulada pelo próprio Google.
O inferno é a sua rede
Administrar uma rede corporativa (1), hoje em dia, é um trabalho que, em outras épocas, condenaria seus praticantes à fogueira, tal a quantidade de mágicas e bruxarias necessárias.
O choque entre as necessidades da empresa (segurança, facilidade de administração) e os desejos dos usuários (liberdade, simplicidade), o choque entre a origem dos sistemas de servidores da Microsoft (Windows NT, Windows 2000/3/8 Server) e dos sistemas consumer da Microsoft (Windows 98/XP), o choque entre as necessidades de segurança (em que a boa prática manda escalar o mínimo possível de privilégios e só quando estritamente necessário) e as necessidades das aplicações (em geral feitas para os sistemas consumer, onde o sistema tudo permite) cria uma tensão e um desconforto em qualquer administração de rede.
Some-se a isso as questões do hardware (a necessidade de fat clients para rodar os sistemas e sua falibilidade mecânica/óptica) e chegamos a uma situação em que administrar uma rede corporativa se torna uma guerra contra todo mundo: usuários (que o vê como inimigo), alta gerência (que vê TI em geral como uma sugadora incontrolável de recursos), malwares em geral (que sempre conseguem entrar na rede) etc.
A solução que não veio
O thin client sempre foi visto como a solução do problema, mas nunca decolou além de situações específicas. Não estaria muito longe da realidade dizer que o usuário rejeitou (e rejeita) soluções de thin client por vê-las como uma imposição do administrador de sistemas, este ser maligno que quer tirar sua liberdade de fazer o que quiser com sua máquina, mesmo que tenha uma etiqueta de propriedade da empresa onde trabalha.
A queda de preço dos desktops e o custo alto das soluções de acesso remoto (Citrix ICA, Microsoft Terminal Services) terminaram de enterrar qualquer esperança de substituir o paradigma desktop Windows+servidor PDC/AD.
Até a cloud computing.
A salvação pela nuvem
A emergência do cloud computing mudou completamente o panorama; em 5 anos, descobrimos que poderíamos rodar praticamente tudo o que precisávamos em janelas de navegadores. Email e PIM, documentos, edição de imagens, gerenciamento de projetos… basta ver na seção de Produtividade da Chrome Web Store, para ficar num exemplo simples, que, tirando situações bem específicas, é perfeitamente possível trabalhar usando apenas uma janela de navegador para grande parte dos usuários de redes corporativas.
E o mais interessante: o esforço dos fornecedores de soluções cloud computing/baseadas na Web de convencer as pessoas de que poderiam usar seus serviços e abandonar os clientes desktop começou a fazer efeito. Certamente alguém tem alguma história de gente que abandonou o, sei lá, Outlook Express para usar o cliente Web do Gmail (que, devo dizer, só tem concorrência no cliente Web do Zimbra).
Não por acaso, o CEO da Google, assumidamente viúvo do network computer, viu o espaço para ressucitá-lo no Chrome OS.
A janela de oportunidade
Não por acaso os proponentes do cloud computing como solução dos problemas da TI corporativa saudaram o Chrome OS; um nome de confiança dos usuários, gerentes e alto escalão (Google) entra na arena oferecendo uma saída para o impasse que torna a TI a “culpada universal” – um sistema simples, baseado no navegador, ancorado no HTML 5 e nos serviços que todos conhecem e confiam – e, para as aplicações legadas, sempre existe o acesso remoto.
Outra grande vantagem é a simplificação do ambiente: ao retirar uma série de complicações advindas da utilização de NT PDC e ActiveDirectory, o Chrome OS corta boa parte dos intermináveis problemas de domínio que infestam redes corporativas.
Nem tudo é possível
O Chrome OS, no estado atual, tem um probleminha: é um sistema que exige uma conta Google/Google Apps e que roda em apenas um netbook, mesmo que quase com um hardware de thin client.
No mínimo, o Chrome OS precisaria ser otimizado para rodar em máquinas mais próximas da realidade corporativa, ou seja, em thin clients e outros network computers. Seria melhor que fosse otimizado para máquinas desktop – certamente com o HD trocado por um pequeno SSD para manter a lógica do sistema operacional – dos grandes fabricantes (HP, Dell, Lenovo etc).
E, em termos de autenticação, seria interessante o suporte a LDAP como backend, com a necessária simplificação para que o administrador com servidor local pudesse autenticar seus usuários de maneira tão fácil como seria contra o Google Apps.
Nem tudo são flores
E, se nem tudo são flores, o que pode parar o Chrome OS?
- Como a Fortune notou, a mesma mão que poderia trocar 60% dos desktops Windows por ChromeOS poderia também trocar administradores de sistemas por servidores de atualização do Google. Por enquanto é apenas uma hipótese, mas talvez um grande caso de sucesso do Chrome OS numa grande empresa poderia ligar uma reação da classe… talvez seja até bom, quem sabe a nossa classe teria algo para se unir?
- Muitas empresas olham com desconfiança para a ideia de entregar a inteligência da sua rede para o Google. Não é a questão da segurança/integridade/privacidade dos dados, muito menos da careless computing (que, para os gestores, é irrelevante), mas do controle, de poder tomar discricionariamente decisões técnicas.
- A “zona de conforto” Windows, que está tão impregnada em todos que se torna uma formidável barreira cultural a qualquer tipo de mudança, inclusive dentro do próprio ecossistema Microsoft, caso da recusa dos usuários de migrarem do Windows XP.
—
(1) Aqui estou falando de redes Windows; não estou me preocupando com redes Linux ou com clientes MacOS X em redes Windows/Linux, para evitar aumentar a complexidade de um post já complexo com situações (ainda) fora da curva normal.


